X-MEN '97: SEGUNDA TEMPORADA — CRÍTICA/ANÁLISE
Uma continuação ambiciosa, marcada por grandes ideias, conflitos complexos e momentos brilhantes... mas que acaba se perdendo diante da própria grandiosidade.

Após uma primeira temporada excepcional, X-Men '97 retorna com uma continuação ambiciosa, repleta de boas ideias e momentos de grande impacto. No entanto, ao tentar conciliar múltiplas tramas em pouco tempo, a série perde parte da coesão narrativa que tornou seu primeiro ano tão especial.
A segunda temporada de X-Men ’97 chega ao fim, para mim, como uma boa temporada de uma excelente série. E essa distinção é importante, porque, apesar de algumas críticas bastante negativas que surgiram em torno dos novos episódios, está longe de ser uma produção ruim. Pelo contrário: a animação continua apresentando um nível de qualidade que poucas séries de super-heróis conseguem alcançar, seja na construção de seus personagens, na abordagem de temas políticos e sociais ou na capacidade de transformar conflitos clássicos dos X-Men em dramas genuinamente humanos. O grande problema está menos na qualidade individual das ideias e mais na maneira como elas são organizadas ao longo da temporada.
Os quatro primeiros episódios são o melhor exemplo disso. Eles apresentam uma narrativa extremamente corajosa, emocionalmente carregada e com uma direção que demonstra absoluto controle sobre aquilo que pretende contar. A ameaça de Apocalypse é estabelecida como um dos grandes eixos da temporada, brilhante trabalhada nesses episódios iniciais por conseguir ser completamente elevada a partir de cada um dos personagens presentes em tela, criando a sensação de que estamos diante de uma história ainda maior do que aquela apresentada anteriormente. O quarto episódio, em particular, é facilmente um dos melhores capítulos já produzidos pela Marvel em qualquer formato de televisão, e demonstra exatamente o potencial que esta temporada tinha para superar sua antecessora. O problema é que esse nível de consistência não se mantém.
Uma narrativa que perde sua direção
A principal fragilidade da segunda temporada está na sua estrutura narrativa. A série começa estabelecendo Apocalypse como uma ameaça central, criando expectativas bastante claras sobre o desenvolvimento desse conflito, mas abandona progressivamente essa história após o quarto episódio. Durante boa parte da temporada, não apenas Apocalypse, mas diversos personagens principais (Ciclope e Jean Grey principalmente) praticamente desaparecem da narrativa principal, retornando apenas por meio de cenas e elementos que funcionam quase como lembretes de que aquele conflito ainda está acontecendo. Enquanto isso, X-Men 97 passa a investir em uma série de outras histórias que, individualmente, são bastante interessantes, mas que acabam disputando espaço entre si.

A partir do segundo episódio, por exemplo, a temporada começa a explorar as consequências do E-Day e a maneira como governos e instituições passam a tentar controlar a população mutante. Os X-Men e a X-Force precisam encontrar maneiras diferentes de lidar com essa nova realidade, enquanto a própria comunidade mutante começa a questionar os limites desse controle. No futuro, essa discussão ganha ainda mais força com Polaris se afastando da X-Force justamente por compreender que os mutantes não deveriam aceitar uma estrutura construída a partir do medo e da vigilância. Paralelamente, Xavier precisa confrontar o legado de Magneto e as consequências de suas próprias decisões, culminando em uma máquina que nasce justamente desse medo e desse ódio e acaba se transformando em uma ameaça contra os próprios mutantes.
São conceitos excelentes, mas o problema é que a temporada raramente permanece tempo suficiente em qualquer um deles para explorar todas as suas consequências. A sensação constante é de que existe material demais para o espaço disponível.
Excelentes histórias que não encontram espaço suficiente
Essa característica fica ainda mais evidente entre os episódios 5 e 7. São capítulos que funcionam muito bem quando analisados individualmente e que oferecem algumas ótimas aventuras isoladas da temporada. O sexto episódio, especialmente, desenvolve de maneira muito eficiente a ideia do legado de Magneto e a forma como sua existência continua influenciando não apenas os mutantes, mas também Xavier e as decisões tomadas pelos X-Men. A relação dessa discussão com Polaris é particularmente interessante porque modifica a maneira como o espectador compreende o conflito entre liberdade, segurança e controle dentro da própria comunidade mutante, além de trazer mais da própria relação da personagem com aquele que nunca conseguiu aceitar como seu pai, uma jornada de aceitamento muito poderosa.

O problema é que essas histórias acabam parecendo maiores do que aquilo que a temporada consegue comportar. A trama com foco em Logan & Morfo, por exemplo, funciona essencialmente como uma aventura independente e possui pouca influência sobre o restante da narrativa. Como a própria aventura de Noturno que também apresenta uma boa história, mas sua importância para a trama maior está principalmente em estabelecer elementos que serão utilizados posteriormente, especialmente no desenvolvimento de Noturno durante o episódio final. Nenhum desses episódios é ruim. Pelo contrário: são bons capítulos. A questão é que, quando colocados dentro da estrutura geral da temporada, eles contribuem para aumentar a sensação de fragmentação.
É justamente aí que a segunda temporada começa a perder a força que havia demonstrado inicialmente. Não faltam ideias; falta espaço para que elas respirem. A série parece querer abordar simultaneamente o legado de Magneto, o posicionamento de Xavier, o controle governamental com a X-Factor em conflito com a X-Force, a ameaça de Apocalypse, Gambit e diversos outros conceitos, mas raramente consegue levar essas discussões até suas últimas consequências. Em vez de construir uma narrativa central e utilizar as demais histórias para aprofundá-la, a temporada frequentemente parece alternar entre diferentes ideias igualmente importantes.
O retorno de Apocalypse e a sensação de urgência
Quando Apocalypse finalmente volta a ocupar uma posição central nos episódios finais, a temporada já precisa correr para resolver ou encaminhar diversos conflitos que foram apresentados anteriormente. Assim, retoma Gambit e desenvolve a ameaça e drama de seu retorno, ao mesmo tempo em que introduz novos conceitos e amplia novamente a mitologia da série. É um capítulo que possui elementos interessantes, mas que também evidencia o quanto a narrativa precisaria de mais tempo para trabalhar tudo aquilo que está colocando na tela.
No episódio 9, essa trama principal passa a funcionar principalmente como o catalisador que coloca os personagens em conflito e conduz a temporada para seu confronto final. Novamente, não significa que o resultado seja completamente negativo. O problema está na trajetória até chegar ali. Depois de apresentar Apocalypse como uma das principais forças narrativas da temporada, passar vários episódios praticamente afastada desse arco faz com que seu retorno não tenha o mesmo peso que poderia possuir caso a história tivesse sido construída de maneira mais contínua, finalizando sua jornada de uma maneira rushada e que parece um episódio de 'What If' inserido na narrativa.

A impressão final é de que algumas das melhores ideias da temporada foram apresentadas antes de estarem completamente prontas para serem desenvolvidas. A série sabe onde quer chegar, mas nem sempre encontra tempo suficiente para construir o caminho até lá. E isso é especialmente perceptível porque a primeira temporada era muito mais eficiente em equilibrar diferentes personagens e conflitos sem perder de vista sua narrativa principal.
O legado da primeira temporada
A comparação com a primeira temporada é inevitável e, infelizmente, é também onde a segunda mais sofre. A temporada de estreia conseguiu construir uma narrativa extremamente coesa, na qual seus conflitos individuais contribuíam diretamente para um arco maior. Cada episódio parecia possuir uma função clara dentro da história, enquanto os dramas pessoais dos personagens estavam constantemente conectados às questões maiores envolvendo a comunidade mutante.

A segunda temporada mantém a mesma qualidade técnica e partes da força dramática, mas apresenta uma estrutura significativamente mais dispersa. A queda não acontece porque os episódios deixaram de ser bons; ela acontece porque a série deixou de ser tão consistente na maneira como conecta esses episódios. É perfeitamente possível assistir aos capítulos 5, 6 ou 7 e considerá-los excelentes individualmente. O problema aparece quando todos são colocados lado a lado e percebemos que algumas dessas histórias poderiam ter recebido muito mais atenção caso outras decisões narrativas tivessem sido tomadas.
E talvez seja justamente essa a maior frustração: a segunda temporada tinha potencial para ser ainda melhor que a primeira. Se a qualidade apresentada nos quatro episódios iniciais tivesse sido mantida durante todo o restante da temporada, provavelmente estaríamos falando de uma das melhores temporadas de uma série de super-heróis já produzidas. A base estava ali. Os personagens estavam estabelecidos, os conflitos eram relevantes e as ideias eram ambiciosas. Faltou apenas uma estrutura capaz de acomodar tudo isso.
Uma temporada ainda acima da média
Apesar das falhas, seria injusto reduzir X-Men '97 a elas. A segunda temporada continua sendo uma produção acima da média do gênero e mantém uma identidade que poucas séries de super-heróis conseguem alcançar. A animação, a direção, a trilha sonora, o desenvolvimento dos personagens e a disposição de abordar temas complexos continuam sendo pontos extremamente fortes. Mesmo quando a narrativa se dispersa, existe uma compreensão muito clara de que os X-Men funcionam melhor quando suas histórias são utilizadas para discutir questões importantes e maduras, ao mesmo tempo que abraçando a fantasia de serem super-heróis.
É justamente por isso que não considero a segunda temporada um fracasso. Ela não perde completamente a qualidade que tornou X-Men ’97 especial; apenas não consegue sustentá-la com a mesma consistência. Existem episódios excelentes (inclusive alguns dos melhores da série), conceitos brilhantes e momentos que demonstram novamente o enorme potencial criativo da série. O problema é que muitas dessas ideias parecem competir pelo mesmo espaço, fazendo com que algumas sejam abandonadas antes de atingirem seu potencial máximo.

No fim, X-Men ’97 termina sua segunda temporada como uma boa temporada de uma ótima série, mas também como uma oportunidade parcialmente desperdiçada. Os quatro primeiros episódios estabelecem um padrão extraordinariamente alto e criam a expectativa de que a temporada poderia superar a primeira. Depois disso, porém, a narrativa se divide entre tantas tramas que o arco de Apocalypse perde protagonismo, enquanto outros conflitos igualmente interessantes nunca recebem o desenvolvimento necessário. Não considero a segunda temporada o desastre que uma parte do público parece enxergar. Ela continua sendo uma ótima série de heróis, com uma qualidade que poucas produções do gênero conseguem reproduzir. Mas a queda em relação à primeira temporada é evidente, principalmente porque sabemos do que X-Men ’97 é capaz quando possui uma narrativa mais focada.
O maior problema desta temporada não é a falta de boas ideias. É justamente o excesso delas. Há material aqui para várias histórias, vários grandes episódios e até temporadas inteiras. Porém, ao tentar desenvolver tudo ao mesmo tempo, X-Men ’97 acaba não indo até o fundo de praticamente nenhuma dessas ideias.
E talvez seja essa a melhor definição para a segunda temporada: uma excelente coleção de ideias e grandes episódios que, juntas, nunca formam uma história tão coesa quanto poderia ser.
★★★⯪☆

Texto por @N0Se1_

_remove-background_png.webp)



Comentários