HOMEM-ARANHA: UM NOVO DIA - ANÁLISE/CRÍTICA
Atualizado: 3 de ago.
Uma nova era de ouro pro amigão da vizinhança tem início através da humanidade de Tom Holland & Destin Daniel Cretton.

Já se encontrou naquele momento em que você precisa escrever sobre algo tão especial para você que as palavras simplesmente parecem insuficientes? Bom... é exatamente onde eu me encontro agora. Há dias tentando descobrir como transformar em texto tudo aquilo que esse filme me fez sentir, procurando uma maneira que faça jus não apenas à grandeza dessa obra, mas também à história de um personagem que significa tanto para mim. E, por mais que eu tente encontrar um novo caminho, sempre acabo voltando ao mesmo lugar. Talvez porque, depois de pensar tanto sobre isso, eu tenha percebido que 'Homem-Aranha: Um Novo Dia' não foi apenas um filme. Talvez ele tenha sido exatamente tudo aquilo de que precisávamos... tudo aquilo de que eu precisava.
É impossível começar a falar sobre Um Novo Dia sem destacar a brilhante direção de Destin Daniel Cretton, que estreia como o novo responsável pelo personagem no Universo Cinematográfico da Marvel e entrega, com folga, o trabalho mais maduro de sua carreira. Se em Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis já era possível enxergar o coração de um diretor apaixonado por histórias humanas, ainda preso às limitações de MCU lidando com o pós de seus maiores sucessos, aqui ele finalmente parece livre para ser completamente ele mesmo.
Desde seus primeiros filmes, Cretton sempre demonstrou uma sensibilidade rara para retratar pessoas emocionalmente quebradas, marcadas por traumas e tentando encontrar alguma forma de preservar sua humanidade, e essa característica se reflete diretamente na maneira como enxerga Peter Parker: um homem distante, solitário, reflexivo e constantemente deslocado, incapaz de realmente pertencer aos lugares por onde passa, mas basta vestir a máscara para que tudo mude. O peso dá lugar à confiança, a solidão se transforma em energia e o Homem-Aranha ganha vida através de algumas das melhores sequências de web-swing e ação já realizadas em live-action, conduzidas por uma câmera inquieta, sempre próxima do personagem e utilizando de forma extremamente criativa sua inteligência, seus poderes e o próprio ambiente ao redor.
Mesmo dentro de uma narrativa surpreendentemente pé no chão, Destin nunca abandona o encanto da fantasia; pelo contrário, encontrando um equilíbrio fascinante entre o espetáculo e a intimidade, filmando o herói com uma grandiosidade contagiante enquanto trata Peter Parker com uma delicadeza quase dolorosa, nos mantendo constantemente próximos de seus sentimentos, mas tão distantes de sua capacidade de encontrar paz quanto a ele próprio.

Tom Holland sempre entregou tudo de si ao interpretar Peter Parker, mas também era evidente que suas atuações nunca haviam encontrado uma direção à altura de seu talento ou um roteiro capaz de explorar todo o potencial do personagem. Homem-Aranha: Um Novo Dia finalmente muda isso. Aqui, Tom brilha em absolutamente todos os aspectos que um ator pode brilhar como Homem-Aranha, incorporando com naturalidade tanto a personalidade vibrante, confiante e carismática do amigão da vizinhança durante as grandes aventuras quanto a figura introspectiva, solitária e paranoica de Peter Parker.
É evidente o cuidado do ator em buscar referências para construir uma versão mais madura do herói, em uma narrativa que aponta para influências da Era Conway, das séries animadas de 1994 e 2008 ou até da trilogia de Sam Raimi, sem jamais perder sua própria identidade. Mais do que isso, Tom encontra uma forma extremamente sensível de traduzir o trauma deixado pelos acontecimentos do filme de 2021 através de um sofrimento silencioso, que nunca explode em grandes discursos, mas grita em cada olhar, em cada pausa e em cada gesto contido. Se antes o fan-service era utilizado como complemento para a jornada de Peter, aqui ele dá lugar a um drama genuinamente humano, que acompanha o protagonista durante grande parte do filme sem o uniforme (quase como The Batman de 2022) para discutir um tema profundamente atual: a solidão.
Disfarçada sob uma trama de mutação genética, a narrativa constrói uma discussão profundamente psicológica sobre até que ponto Peter Parker está deixando de ser homem para se tornar, cada vez mais, aranha. O surgimento de novos poderes, tão fascinantes quanto incontroláveis, funciona como uma manifestação física da confusão que domina sua mente e das consequências de uma vida construída sobre a privação de qualquer tipo de conexão humana. Diferente da abordagem da série animada de 1994, o filme utiliza essa transformação não como o centro da história, mas como a representação do estado emocional de Peter: um homem preso entre dois mundos, incapaz de aceitar plenamente as consequências da solidão que escolheu, mas igualmente incapaz de abandonar aquilo que mais o machuca: a crença de que sua presença inevitavelmente causará sofrimento àqueles que ama.
É justamente nesse conflito que Tom Holland entrega o melhor trabalho de sua carreira. Seu carisma continua irresistível nos momentos mais leves, mas é sua atuação corporal que verdadeiramente impressiona, comunicando um peso emocional constante e transformando cada olhar, cada silêncio e cada pequeno gesto na expressão de alguém que luta desesperadamente contra o desejo de voltar a se conectar com as pessoas que mais ama. O resultado é, para mim, não apenas a atuação definitiva de Tom Holland, mas também a representação mais completa e poderosa de Peter Parker já levada aos cinemas.

Com isso, é impossível não destacar a maneira como o filme utiliza seus coadjuvantes não apenas para expandir um Universo Cinematográfico da Marvel já consolidado, mas, principalmente, para aprofundar a jornada de Peter Parker. Frank Castle talvez seja o maior exemplo disso. A presença do Justiceiro é extremamente empolgante, não apenas pela química absolutamente natural entre Tom Holland e Jon Bernthal (daquelas que facilmente sustentariam mais dez filmes juntos), mas pela forma como o roteiro finalmente permite que Frank exista para além do ciclo de vingança que definiu praticamente todas as suas aparições desde 2017.
Sem abandonar sua essência, Bernthal interpreta um Justiceiro mais introspectivo, cuja brutalidade deixa de ser o centro da narrativa para dar espaço a um personagem que finalmente encontra novas camadas dramáticas. E é justamente aí que reside sua maior importância: Frank funciona como um reflexo de Peter. Ambos transformaram a solidão em um lar, não por escolha, mas pelas consequências de tudo aquilo que viveram. Essa mesma lógica também se estende a Bruce Banner, outro personagem utilizado de maneira surpreendentemente inteligente, longe de servir apenas como um pretexto para uma gigantesca sequência de ação (por sinal, maravilhosamente dirigida), Banner e o Hulk representam um homem em constante conflito com o próprio monstro que carrega dentro de si. Ao colocar Peter diante dessas duas figuras, o filme constrói um espelho para seu protagonista, obrigando-o a confrontar não apenas seus medos, mas também a refletir se as escolhas que vem fazendo o conduzirão ao herói que deseja se tornar... ou ao homem que parece estar apagando da existência.

A construção de mundo é fantástica, não apenas por expandir o MCU, mas principalmente por resgatar algo que sempre foi essencial às melhores histórias do personagem: Nova York volta a ser um personagem. Destin Daniel Cretton entende que o Homem-Aranha não existe separado de sua cidade, e faz questão de transformar cada rua, prédio e cidadão em parte ativa da narrativa. Em diversos momentos, o filme desacelera apenas para mostrar uma cidade viva, construída através de uma montagem quase mágica que acompanha o carinho e a confiança que a população desenvolve por seu herói ao longo dos anos. Ao mesmo tempo, quando Peter perde o controle, é pelos olhos desses mesmos cidadãos que sentimos o peso de sua queda, tornando sua crise muito mais assustadora justamente por afetar aqueles que sempre enxergaram nele um símbolo de esperança. Essa relação também se manifesta na fotografia impecável de Brett Pawlak, cinematógrafo recorrente de Destin, que utiliza a imagem para contar uma história paralela. Durante o dia, a fotografia abraça cores vibrantes, a luz natural e o contraste marcante do uniforme do Homem-Aranha, reforçando o espírito otimista do personagem. À noite, porém, Nova York ganha vida através de suas luzes intensas, enquanto tons azulados dominam os momentos de maior fragilidade emocional, refletindo o isolamento de Peter sem que uma única palavra precise ser dita. O resultado é um dos visuais mais completos que um filme do Homem-Aranha já teve, equilibrando a identidade colorida e fantasiosa da trilogia de Sam Raimi com o uso elegante de sombras e contrastes presente nos filmes de Marc Webb, encontrando uma personalidade própria que faz cada quadro respirar a essência do personagem.
Mas, para mim, o maior destaque do longa está em Sadie Sink. Em sua estreia no MCU, a atriz entrega uma das performances mais densas, complexas e trágicas de toda a franquia. Sua personagem é verdadeiramente aterrorizante em seus primeiros momentos, não apenas pela capacidade de transmitir ameaça e brutalidade através de poucas palavras, mas pela forma como Destin Daniel Cretton utiliza suas habilidades em cena. Existe uma linguagem quase saída de um filme de terror na maneira como seus poderes são filmados, potencializada por uma direção impecável de atuação e por um trabalho corporal impressionante de toda a equipe envolvida, fazendo com que cada movimento pareça extremamente bizarro e perturbador. Ainda assim, é quando a narrativa finalmente nos permite enxergar quem realmente existe por trás daquela figura que Sadie alcança seu melhor. Aos poucos, sua antagonista deixa de ser apenas uma ameaça e se transforma na maior âncora emocional da jornada de Peter Parker, estabelecendo um paralelo doloroso entre dois personagens consumidos pela solidão, pelo trauma e pelas consequências de suas próprias escolhas. O resultado é uma personagem profundamente trágica, que jamais perde sua força como vilã justamente porque nunca deixa de ser humana, consolidando Sadie Sink como um dos maiores acertos como antagonista e uma das mais únicas já apresentadas nessa franquia.
Depois de anos de críticas, principalmente pela falta de desenvolvimento e pela dificuldade que Jon Watts tinha em transformar a personagem em alguém verdadeiramente tridimensional, Zendaya finalmente recebe a oportunidade de fazer sua MJ brilhar. O filme não apenas concede a ela um impacto emocional muito mais significativo na jornada de Peter, como também remodela completamente sua identidade, apresentando uma versão de Mary Jane Watson realmente interessante, charmosa e extremamente cativante. Seu novo visual acompanha essa transformação, mas é sua personalidade que mais chama atenção: sem abandonar traços já conhecidos da personagem, o roteiro os amadurece e os utiliza para construir alguém muito mais humana e complexa. Essa evolução também se reflete na química com Tom Holland, que sempre existiu, mas que agora encontra uma direção capaz de explorá-la com a maturidade que ela merecia. Destin Daniel Cretton compreende que o relacionamento entre Peter e MJ nunca deve servir apenas como um romance, mas como o coração emocional da narrativa: a partir de um roteiro extremamente preciso, a história amplia as consequências das decisões tomadas anteriormente para construir um drama sobre solidão, conexões e, acima de tudo, humanidade. Cada encontro entre os dois carrega a dor de tudo aquilo que foi perdido, mas também o conforto silencioso de reencontrar alguém que sempre pareceu ser um lar, sendo cenas que machucam e acolhem na mesma intensidade, resultando em alguns dos momentos dramáticos mais poderosos que o Homem-Aranha já teve nos cinemas.

O mesmo acontece com Ned, interpretado por Jacob Batalon. Mesmo ocupando um espaço menor na narrativa, sua presença nunca deixa de ser essencial, funcionando como uma ligação constante entre Peter e uma vida que precisou ser deixada para trás, ao mesmo tempo em que representa a esperança de um futuro finalmente construído sobre amadurecimento, recomeços e novas escolhas. E talvez seja justamente essa a maior qualidade de Destin Daniel Cretton como cineasta: acima de qualquer sequência de ação ou espetáculo de super-heróis, ele sempre escolhe contar histórias sobre pessoas. Pessoas tentando se reencontrar, reconstruir laços e acreditar que, mesmo depois dos piores dias de suas vidas, ainda existe a possibilidade de um novo começo.
Assim como nenhum filme é perfeito, aqui também encontra alguns tropeços. O principal deles está em alguns usos do humor, que em certos momentos acaba interrompendo cenas dramáticas que poderiam encerrar de maneira poderosa, mas são seguidos de pequenas piadas inseridas logo após sequências emocionalmente intensas, uma fórmula já conhecida do MCU, mesmo que felizmente, aconteça pouco e nunca chegue a comprometer a experiência ou a força da narrativa. Outro ponto que acaba prejudicando parte da experiência para alguns, é o próprio marketing do filme. Embora a campanha tenha sido eficiente em esconder sua trama principal, ela revelou boa parte das grandes sequências de ação antes mesmo da estreia, resultando em momentos que, por mais espetaculares e grandiosas que continuem sendo na tela, inevitavelmente trazem aquela sensação de "já acabou?", diminuindo um pouco do impacto da surpresa. No fim, fica mais uma vez a impressão de que, quando se trata de divulgar um filme, menos realmente pode ser mais.
Bom, a jornada foi longa, mas Homem-Aranha: Um Novo Dia faz cada segundo valer a pena. Não apenas por devolver o personagem ao lugar de onde ele jamais deveria ter saído, do coração das pessoas comuns, mas por amadurecer todos os pilares da trajetória de Tom Holland de uma maneira que conversa diretamente com a essência de Peter Parker. Sempre foi sobre tomar decisões impossíveis e conviver com suas consequências. Sobre entender que responsabilidade nunca significou carregar o peso do mundo sozinho, aceitar que sua maior força jamais nasceu apenas da máscara, mas da capacidade de ser Peter Parker e Homem-Aranha ao mesmo tempo; de abraçar essas duas vidas sem abrir mão daquilo que realmente o define: sua humanidade. E talvez seja justamente por isso que essa história tenha significado tanto para mim.
Porque, em algum momento da vida, todos nós nos sentimos completamente sozinhos; amassados pelo peso das próprias escolhas, presos em dias que parecem nunca melhorar, convencidos de que a única maneira de proteger aqueles que amamos é nos afastando deles. Mas, ao caminhar ao lado do personagem que sempre nos ensinou a acreditar na bondade das pessoas, somos lembrados de algo que às vezes insistimos em esquecer: ninguém foi feito para enfrentar a vida sozinho. Somos salvos pelas conexões que construímos, por um abraço, por uma risada, por uma palavra dita na hora certa, e mesmo depois de sacrifícios que mudam para sempre quem somos e quem ainda podemos ser, sempre existe a possibilidade de encontrar alguém disposto a estender a mão quando tudo parece perdido. Porque, no fim, até o Homem-Aranha precisou ser salvo em um novo dia.
O Homem-Aranha voltou.
Mas, mais importante do que isso...
Peter Parker também.
★★★★★

Texto por @N0Se1_

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